Wednesday, February 28, 2007

Achei hoje nos meus guardados.

De fogo branco

A brancura do papel na máquina chegava à ser implacável. Uma folha em branco colocada num ímpeto e que se quedava ansiosa, curiosa do seu destino. E talvez até mesmo ávida como uma virgem que levou tempo demais até se decidir. O papel começou à ser ao mesmo tempo o sujeito e o objeto. Como se fosse um assunto predileto. Mas não era.

Haviam tantos outros que poderiam cobrí-lo, como num ato de amor, de fé, ou mesmo com a força de um trovão um ato de ira há muito contida. Mas as palavras insistiam em se formar no sentido único de cobrir o papel, bem formuladas talvez, mas relutantes em sair do que estava se tornando um círculo vicioso. Quem sabe uma elipse viciosa, pois pressentia-se a possibilidade de novos temas. Não adianta querer me abandonar. Nem mesmo ficar tão apaixonada, que nada. Mistério sempre há de pintar por aí...

_Por que não escrever sobre ela?
_A folha em branco?
_Não. Sobre ela. Ela, aquela moça de fogo.

A moça de fogo era um tema bastante para cobrir muitas páginas em branco. E para ser coberta em muitas noites em branco. Mas resistia, como se fosse queimar o papel ao ser descrita, falada, assumida ou amada na folha em branco, que (já meio coberta) saracoteava pra cá e pra lá, de linha em linha.

_Por que não escrever sobre ela?
_A folha em branco?
_Não. Sobre a moça de fogo.
_Mas se até já escreví.
_Pouco. É preciso escrever mais. Pelo menos até chegar ao final da folha em branco. E preto.

O espaço era grande demais e mínimo para se contar mais sobre a moça de fogo que iluminava os dias azuis e as noites em branco. Não era possível sequer fazer uma boa descrição dos seus longos cabelos que não eram de fogo. De sua boca quente, cálida nas palavras e no amor. De seus olhos de uma divindade demoníaca. De uma candura angelical quando lançava chamas como um dragão mitológico. Como em tão pouco espaço, e ainda tanto, explicar o som infantil de sua voz de mulher de muita vivencia, que adquiria por vezes modulações da maior gravidade. Como resumir em muitas palavras o corpo de fogo da moça. Como fazer entender que o corpo de fogo ficava frio em certas noites frias ou quentes. Frio como só a moça de fogo sabia transmitir quando decidia. É tao fácil e tão difícil escrever sobre a moça de fogo.

_Por que não escrever mais sobre ela?
_A moça de fogo?
_Ou a folha em branco.
_Porque acabou. Acabou o branco. Ficou uma vaga sensação de frio calor.

(escrito em uma folha, numa noite de dor de corno em 1977, ouvindo “Doces Bárbaros”.)

1 comment:

Lucas Sigaud said...

muito legal esse post... tenho várias coisas que foram escritas de lampejo assim também - algumas ficam realmente boas, outras...

(tem até um em um bloco de hotel no rio de janeiro, com meu irmão e um amigo nosso falando besteira... vc se lembra? ;) hehehehehe)