Wednesday, February 14, 2007

Copacabana me engana (ou "Políticamente Incorreto")


(esta era para o livro)

Eu me criei na Rua Santa Clara 41 apto. 101 em Copacabana. Cheguei lá com 3 anos e meio, e era o único prédio da quadra. Hoje é o mais baixo com seus 9 andares, e o apartamento térreo já virou loja há muitas décadas. Copacabana era um planeta completamente diferente de Budapest, onde estou morando há 7 meses com a gaivota-mobile comprada na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte!

Segundo mal me ensinaram em criança, todos os nordestinos eram da Paraíba. A pracinha onde eu andava de charrete puxada por um bodinho (será que foi por isto que deixei o cavanhaque quando ele ficou branco?), a Serzedêlo Correa, era a “Praça dos Paraíbas”. O ponto de bate papo de todos os operários de construção da época. Trilha sonora: Jackson do Pandeiro e Almira, Marinês e sua Gente, e claro o Grande Luiz Gonzaga!

Aliás, foi na Praça Serzedêlo Correa (que era paraense, e foi governador do Paraná antes de ser prefeito do Distrito Federal) que eu ao mesmo tempo me sentí rejeitado por uma menina pela primeira vez, e ao mesmo tempo cometí a minha primeira gafe política. Minha família estava no Brasil há pouco mais de 2 anos e eu ainda me confundia muito com as palavras em português, como hoje me confundo com as palavras em húngaro. Eu tava brincando na pracinha e uma menininha linda estava distribuíndo uns papéizinhos. Eram cédulas de propaganda eleitoral para a eleição presidencial de 1950. A menininha chegou pra mim com as cédulas e me perguntou:

__Getúlio ou Brigadeiro?

Eu queria dar a resposta que ela quisesse, mas eu não sabia o que era um “getúlio”. Nem sabia que o “brigadeiro” ao qual ela se referia era o Brigadeiro Eduardo Gomes, um dos sobreviventes da Revolta dos 18 do Forte de 1922, um dos conspiradores que derrubaram Washington Luís, e pela segunda vez candidato à presidência da República pela UDN. Pra mim “brigadeiro” era talvez alguém que topava brigar e um “getúlio” seria o oposto? Ou talvez aquele doce gostoso de chocolate?

__Brigadeiro, respondí sorrindo e esperando um sorriso igual ao da meninha, e um daqueles papéizinhos!

Para a minha decepção, a menina botou a lingua pra fora e foi embora sem me dar o papel. Esquecí desta história por muito tempo e só voltei à me lembrar dela quando o Brigadeiro Eduardo Gomes foi um dos conspiradores do golpe militar de 1964. Mas continuei e continuo gostando do doce!

3 comments:

Bruno Scott said...

Um doce pedaço de sua história! Sou muito ligado a detalhes em minha vida, gosto de contar as coisas como se fosse uma "candinha". E adoro saber que pequenos episódios marcam a vida de alguém, como marcam para mim.
As vezes a outra pessoa participante jamais se lembrará! Pra mim é uma decepção!

fox said...

Por estranha coincidência, foi uma praça que me fez usar aparelho nos dentes por 8 anos...

inclusive aqueles damn! extra oral.. qto eu tive que aguentar... mas valeu pra me servir como lição de aprender a utilizar a critica como algo para fortalecer.
grande adler.. lembranças sempre bem vindas... e muito bem compartilhadas

Lucas Sigaud said...

aahhahaahhaahhaha

muito fofa essa. "vc se lembra" de quando nós fomos no teu prédio?? :)