Thursday, February 15, 2007

Havia um forno famoso...


Os doces da Confeitaria Piccadilly, dos meus pais, eram os mais gostosos do Rio de Janeiro entre 1949 e 1963. Da torta rigó jancsi de chocolate, com recheio de creme chantilly misturado com cacau, aos milfolhas, sempre fresquinhos. Eram também dos mais caros da cidade. A não ser para os porteiros e empregadas da Rua Hilário de Gouveia 88 (e seus vizinhos) em Copacabana. Antes de fechar a loja, tanto os mil-folhas, quanto outros doces na base de creme de baunilha ou chantilly eram generosamente distribuídos. Não era admissível vender sobras no dia seguinte.

Por isto meu pai acordava às 3-4 horas da manhã para ligar o fôrno.
As vezes, eu dava mais algum tempo de sono pra o velho. Principalmente nas segundas-feiras nos ínicios dos anos 60. Era a noite do Grande Teatro Tupi, alternadamente dirigido pelo Sergio Britto e pelo Fernando Torres. Quando tinha papel para garoto eu tava dentro. Aliás se tivesse para mais de um, porque a preferência era para o Claudio Cavalcanti que tinha trabalhado com eles no TBC (Teatro Brasileiro de Comédias), e a maior parte do elenco era de lá.

O Claudio era o meu melhor amigo. Mais velho do que eu 3-4 anos, era o único na Tupi perto da minha idade. A gente curtia Elvis Presley e praticávamos inglês tirando letras das músicas dele. E do Paul Anka, que assistimos no Copacabana Palace e no Maracanãzinho. Foi muito irado conhecer o Paul Anka nos bastidores e curtir papinho em inglês com ele.

Numa das minhas idas ao Rio, em 2003, o Claudio já era vereador e me acompanhou numa audiência com o Secretário de Esportes da Prefeitura, Ruy Cezar, quando fui pedir um apoio pra galera que joga futebol americano nas praias do Rio. A turma do Carioca Bowl. Quem sabe se um dia este apoio saí?


Divago. Mas depois do Grande Teatro eu saía com a turma para jantar geralmente na Cantina Veneziana, na Rua Siqueira Campos. As vezes na Fiorentina.

Era muito divertido e para mim foi uma grande escola de cultura. Os grandes autores e escritores do mundo todo eram discutidos. E no dia seguinte eu comprava livros. Não queria ficar fora dos papos e não havia um google para fazer um “search” rapidinho para saber quem foi Fyodor Mikhailovich Dostoievsky. Tinha que ler O Idiota, Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov.

Mas meus “professores” não ficavam só nos papos eruditos. Depois do jantar sempre rolava uma rodada de “escravos de jó” com caixas de fósforos com a participação de Sergio Britto, Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Zilka Salaberry, Francisco Cuoco, Carminha Brandão, Paulo Padilha, Natália Timberg, Aldo de Maio, e tantos outros grandes atores que eram desta falange.

E depois alguns iam comigo ligar o forno da Confeitaria Piccadilly na madrugada e comer uns doces gostosos oferecidos pelo filho do dono na base do 0800.

1 comment:

Ricardo said...

Poxa AJA que legal, vc conheceu a nata da nata da cultura brasileira(e certamente faz parte dela) o progresso é bom, mas que pena que hj pouco se preocupem em ler um livro, alias brasileiro nao le nem bula de remedio....

E quando vc vai publicar um livro com as receitas da Piccadily?

abraçao