Thursday, February 15, 2007

Eu não posso não falar de futebol americano!


O plano aqui deste blog não é ser um blog de esportes, mas que eles vão entrar no registro quando me der vontade... ah, isso vão! Eu estava espiando uns arquivos antigos no meu drive de backup e dei de cara com esta entrevista que eu dei em dezembro de 1998. Não consigo lembrar para quem e nem para onde. Ou mesmo se foi publicada. É uma pena esta minha falha de memória porque as perguntas foram muito legais. Se alguém souber, me avisa! Interessante reler isto mais de 8 anos depois e compartilhar aqui, à luz da realidade de hoje. Este era meu papo em 1998!


Como você vê o crescimento do futebol americano no país do futebol ? Que horizonte você enxerga para a massificação do esporte frente à paixão do torcedor brasileiro por seu clube de futebol?


O Brasil sempre se mostrou rápido para absorver qualquer novo entretenimento. Sob este aspecto o futebol americano vai crescer na medida do aumento de lares com tv por assinatura. A reação positiva começa quando o telespectador percebe que é um esporte não só de força (“um bando de caras dando encontrões uns nos outros e começando tudo de novo”), mas de inteligência e estratégia. É a maneira pacífica de se observar ações quase paramilitares e isto tem tudo a ver com a natureza humana. É uma guerra territorial, e um jogo de xadrez entre técnicos.

Já quanto a massificação do esporte… se ocorrer, ela será mais demorada e ainda deve levar uma ou duas gerações pelo menos. Qualquer massificação ocorre por identificação. E não só no esporte, é claro. A novela brasileira é um exemplo perfeito. Ela trata (mesmo de forma fantasiosa) do cotidiano do rico e do pobre, e seus personagens fazem de tudo para conseguir os seus “touchdowns” particulares na “endzone” da sorte. Os preferidos do público…conseguem!

O talento do brasileiro para o futebol se verificou na prática dele. Afinal é um esporte importado da Inglaterra (dele deriva o rugby, que se modificou no futebol americano – o Australian Rules Football e o Hurling Irlandês também vem do futebol que o brasileiro domina). Para um menino brasileiro “ser bom de bola” é um ponto quase de honra. O futebol americano, devido a variedade de posições, oferece alternativas para o menino mais pesado, para o que apesar de não ter habilidade de drible com as pernas, é no entanto veloz na corrida, etc. É um esporte que tem lugar para jogadores de biotipos dos mais diversos, e que pode ser uma boa opção.

Portanto só quando você estiver vendo a garotada jogando futebol americano nas escolas, condomínios, terrenos baldios, ou na praia que você pode antever uma possível massificação. Mas é fácil. Tudo começa com uma bola e um campo.


Quais as semelhanças e diferenças que você enxerga entre o modo de torcer do brasileiro e o carinho que os fãs dos EUA tem para com seu time favorito ? Você acredita que existem diferenças culturais na forma de torcer ou o amor pelo esporte transcende isso?

Torcedor é torcedor. O seu time favorito representa o seu orgulho e por isto você quer a vitória dele. Eu não lembro quantos times profissionais de futebol existem no Brasil, mas nos Estados Unidos são apenas 30. E o país tem 50 estados. A Califórnia, Nova York, Flórida e a Pensilvânia são os mais representados entre eles. Mas a escolha do time não segue exclusivamente o regionalismo. É claro que o povo de Winsconsin tende a torcer pelo Green Bay Packers, mas um cidadão de Idaho pode ser torcedor do Dallas Cowboys ou do San Francisco 49ers por suas próprias razões subjetivas. Além disto, os times são propriedades privadas que muitas vezes mudam de estado. O Palmeiras nunca será um time de Minas Gerais. O Flamengo jamais se mudará para Belém do Pará!

Futebol americano é complicado? Como é destrinchar isso para o telespectador?

O futebol americano é complicado pelas filigranas das regras, mas é um jogo relativamente simples. O objetivo do ataque é ganhar território e chegar na endzone para marcar pontos. Com corridas ou passes aéreos. O objetivo da defesa é impedir isto. Uma vez isto entendido, fica fácil para o telespectador acompanhar. Eu procuro descomplicar os detalhes.

Como foram suas primeiras transmissões? Você se lembra de ter cometido alguma gafe na fase de familiarização com as regras?

As minhas primeiras transmissões foram bastante circunstanciais. E por sorte, a nossa audiência ainda era pequena. Cometi muitas gafes sim. A única coisa que acho que nunca fiz foi inventar… o que não existia (a não ser talvez por alguns touchdowns precipitados).

Quando vocês realizam as transmissões vocês conseguem aproveitar as informações que são dadas pela narração original das emissoras ABC e ESPN ? Onde vocês procuram as notícias ou informações que complementam a longa transmissão de no mínimo 3 horas?

A narração original para mim serve mais como um guia, se bem que as vezes pode me complementar uma informação de campo. A minha atenção é no jogo, pois qualquer desconcentração pode resultar em erro. Se é para errar, prefiro cometer meus próprios erros.

A produção da ESPN nos provê com pacotes de informações imensos, que contém os releases e os “game notes” que são fornecidos à mídia pelos times. Além disto, recortes de jornais e impressos de histórias publicadas na internet. É claro que nós acompanhamos o dia a dia do esporte, assitindo trechos de várias partidas diurnas, resenhas, mesas redondas na televisão. Outra coisa muito importante é que a gente vive nos Estados Unidos há muito tempo e isto nos ajuda à enriquecer as partidas dentro de um contexto bem amplo e dentro do cotidiano. Pessoalmente, uso muito a internet. Recebo diáriamente um email com as ultimas notícias, detalhes de todas as partidas da rodada, e para estar por dentro do que é importante para o brasileiro eu acompanho os destaques na Redzone, assino a lista da Redzone e visito o #NFL-Brasil da Undernet.


Na sua opinião, os inúmeros intervalos comerciais que ocorrem durante uma partida não podem tirar o dinamismo para o telespectador e prejudicar uma audiência mais fiel?

Os intervalos ocorrem geralmente após um touchdown ou field goal, após o kickoff seguinte, e quando o jogo pára por pedido de tempo. O telespectador não está perdendo absolutamente nada da ação. Uma transmissão de NFL é caríssima. Sem comerciais… ela não existiria.

O que você mais admira na NFL? Você tem alguma crítica ao processo de organização como um todo?

Eu acho uma liga muito bem organizada. Acho que é uma liga atenta para o seu público e bastante dinâmica. Um bom exemplo é a rapidez como após com o incidente da moeda no jogo do Steelers com o Lions, a NFL mudou o procedimento para que o capitão designado do time visitante escolhesse “cara ou coroa” antes da moeda ser lançada ao ar, e não durante o tempo em que a moeda está no ar como era tradicional. Acho que Paul Tagliabue faz um excelente trabalho e imagino que não deve ser fácil mediar todos aqueles poderosos milionários que são os donos dos times.

Detalhe: O fato que em 1999 já teremos um novo Cleveland Browns, mostra também uma sensibilidade para com a torcida que não ocorreu quando o Baltimore Colts “fugiu” para Indianapolis.


O que você acha que fará a diferença nos playoffs da temporada deste ano, que estão se aproximando? Você tem um palpite sobre quem estará no Super Bowl em Miami?

Um fator importante será a sáude. Jogadores importantes contundidos podem fazer a diferença. Por exemplo, a perda de Bryant Young para a defesa já inconsistente do 49ers poderá ser um problema sério nos playoffs.

Por desempenho até a semana 13, o mais óbvio seria encontrar Denver e Minnesota no Superbowl. Mas playoffs tem a sua própria vida, e surpresas acontecem. A maior surpresa para mim este ano na AFC tem sido o New York Jets, que está mandando muito. Na NFC, tanto o Packers, quanto o 49ers, quanto o Cowboys são tradicionalmente fortes nos playoffs e podem criar problemas para o Vikings. Mas este ano tem o Atlanta pressionando e impressionando. A zebra em Miami pode ser Falcons e Jets.


Qual o touchdown mais emocionante que você já narrou?

Esta é a pergunta mais difícil, pois foram tantos. Desde históricos como o do recorde de Jerry Rice e passes de Joe Montana e Dan Marino, e corridas de Emmmit Smith e Barry Sanders até proezas de Deion Sanders. Mas houve um retorno de kickoff de noventa e tantas jardas de Tamarick Vanover na sua temporada de estréia na NFL que me pegou de surpresa e que foi muito emocionante.

Que recado você deixa para os fãs brasileiros que ficam até altas horas da madrugada acompanhando as transmissões da ESPN?

Vocês são a minha motivação para eu fazer o que eu faço.


PS: Em 1999 o Denver Broncos derrotou o Atlanta Falcons por 34 a 19 no Super Bowl XXXIII. Eu não estava tão fora...

5 comments:

André Rozendo said...

Grande entrevista Adler, mto boa suas ideias e como vc pensa sobre FA..vlw por tuso até hj, hehe
abs!!!

Lucas Sigaud said...

excelente entrevista :)

adorei!

Anonymous said...

Uma coisa que havia notado é q a voz do Ivan é muito parecida com a do Adler(posso tá ficando doido)mas até agora o blog tá surpreendendo pra caramba,tá muito interessante...

Felipe Arten said...

Poxa André que saudade do "e é touchdown" nas noites de Domingo e Segunda.
Seu blog está muito bacana, gostei muito das suas aventuras ai na Hungria e apoio sim que você escreva um livro pessoal das suas passagens e narrações da bola oval que tanto nos trouxe alegrias. Anos e anos, cresci ouvindo você narrar o esporte que hoje é minha paixão. Há quem não perceba, mas indiretamente você, o Ivan e o Marco fizeram parte de um pouquinho da minha infancia e da minha adolescencia e de certa forma passaram uma mensagem positiva a todos que os acompanhavam.
Tenha um otimo carnaval ai na Hungria.

Abraços

Marcio Oliveira said...

NADA MENOS QUE SENSSACIONAL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! NOSSA, SEM PALAVRAS..............


ps. Desculpam pelos Casp Lock, mas..... rs