
Em 1963, com 18 anos e meio finalmente foi a minha vez de ir ao baile que tantas vezes tinha visto na televisão. Fui com a turma do Mingão, meu grande amigo Domingos de Oliveira. Domingos era quase um guru para nós. Lembro dele fantasiado de pierrô.
A sensação que mais lembro foi que parecia que o salão fazia os movimentos ao rítmo da música, e que nós os foliões apenas acompanhávamos. Talvez tenha sido o scotch que pude comprar oficialmente pela primeira vez, talvez um lenço perfumado que me deram.




As imagens das pessoas no finalzinho do que seria penúltimo carnaval antes do golpe militar eram da maior poesia. Fim de carnaval, amores que terminam, amores que apenas começaram. Umas pessoas bebadas cantando desafinadamente em paz, confeti, serpentinas, lantejoulas brilhando independentes nas ruas do centro da cidade. Garrafas e latas douradas vazias e abandonadas pelo chão. O ruído dos primeiros caminhões de limpeza urbana começando à chegar eram o contraponto para os últimos pandeiros que sacolejavam hesitantes em mãos já cansadas.
E como se podia esperar, pouco depois nasceu o dia. Um belo sol de quarta-feira de cinzas que nos convidava à voltar para a Zona Sul, talvez dormir um pouco, e ir para a praia. O ano iria começar. Acabou o nosso carnaval.
Meses depois, o mesmo Carlinhos Lyra junto com o grande Vinicius de Moraes criou e lançou esta música que está no coração de todos os brasileiros:
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar
De que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz

Para mim, a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas” será sempre quase como o meu hino particular evocativo daquele carnaval.
Naquele ano, a Mangueira ficou em 2º lugar com o tema Exaltação a Bahia, e o Salgueiro ficou em primeiro com o fantástico Chica da Silva .
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