Monday, March 19, 2007

“O Show não pode parar!” (ou como “Ressucitei e narrei a Copa Stanley”)

Eu sou pontual. Minha mãe me ensinou isto. Ela aprendeu o valor da pontualidade com o meu avô. Não o conhecí, mas ouví muitas histórias dele. Um dos carros que passaram pela vida dele foi um Daimler vermelho. Era único em Zagreb, na Croácia. De origens humildes, meu avô chegou por meios próprios à ser uma pessoa muito conhecida e de bens na antiga Iugoslávia. E uma de suas características era a pontualidade.

Uma vez, quando adolescente, eu estava com amigos e fomos tomar um cafézinho num botequim qualquer do Posto 6. Tinha um senhor um tanto embiritado que entrou no nosso papo. Simpático, tinha um sotaque engraçado em português. Perguntei de onde ele era e ele era de Zagreb. Era o Alexandre Horvat. Eu o conhecia de nome pois foi diretor de arte de dezenas de filmes brasileiros.

Conversa vai, conversa vem eu disse que a minha mãe também tinha nascido em Zagreb, e se por acaso ele teria conhecido o meu avô, que em algum momento foi o Presidente do Automóvel Clube de lá. Perguntou o nome e eu dissse: Edo (Eduardo) Funk. O homem arregalou os olhos e perguntou: “Você é neto de Edo Funk?” E me olhou quase como se eu fosse um E.T. (coisa que não garanto não ser)... Pequena pausa para uma informação ao leitor: Pronuncia= “Fúnk” e não “Fânk”, apesar de eu ter algum rítmo no sangue.

Mas então, o tal Alexandre me contou que o meu avô tinha um Daimler vermelho e que era único em Zagreb. E que ele era tão pontual que as pessoas sabiam exatamente que horas eram ao ver passar o carro dele pelas ruas à caminho do trabalho. Um dia o velho resolveu mandar pintar o Daimler vermelho de cinza. Houve um abaixo-assinado pedindo para ele pintar o carro de vermelho de novo, coisa que ele fez.

Achei muito interessante, mas não sabia se o Alexandre estava tirando onda com a minha cara ou se era a birita do botequim que estava contando aquela história. Fui conferir com a minha mãe e era verdade. Depois disto o Alexandre Horvat foi convidado à jantares com a minha família e nos tornamos bons amigos. Chegamos até à trabalhar juntos em cinema alguns anos mais tarde.

Mas eu ja era pontual e tinha um senso de responsabilidade. Afinal, não tinha como não ser pontual quando se fazia tv ao vivo. Outra coisa que sempre tive dentro de mim foi “o show não pode parar”. Tanto que aos 15 anos, fazendo uma peça no Teatro Rival com Alda Garrido (que já é nome de rua na Barra há anos), fui trabalhar num sábado com 39 graus de febre. Era uma vesperal e dois espetáculos noturnos de uma peça de 3 atos, dos quais eu não estava em cena apenas uns 10 minutos no 3º ato. A peça, “Miquelina” de Pedro Bloch, era um grande sucesso e eu não iria decepcionar o público. Eu fazia o filho da Miquelina.


A minha própria mãe morreu em 1993. Eu estava na ESPN, eram cerca de 6 da tarde, e eu tinha um jogo de boliche e uma luta de boxe para narrar. Nesta época eu ainda morava em Nova York, e passava 4 dias por semana num hotel em Bristol (a cobertura em português da ESPN ia só de quinta-feira à domingo). Desespero. O último avião para o Rio sairia de Kennedy 2 horas depois. Eu não estava com meu passaporte e não havia condições de ir buscá-lo e chegar no aeroporto em tempo. Era destino. Eu não poderia ir no enterro da minha grande amiga.

Meg Green, supervisora, me deu colo e Bernard Stewart, hoje Vice Presidente da ESPN para Ásia, e na época o nosso big boss veio me apoiar. Ele havia perdido um filho jovem naquele ano com um ataque de coração numa quadra de basquete, e veio compartilhar alguns sentimentos. Ele me disse para que eu me tratasse com muito carinho e até egoísmo se preciso. Eu agradecí e disse que estava na hora de ir para o ar. Ele não queria que eu fosse. Eu fui. Quando o Bernard saiu do nosso departamento foi triste. Nunca mais tivemos um diretor do seu naipe humano.

Pois eu narrei o tal boliche e se alguém assistiu jamais saberia que havia qualquer problema comigo. A não ser a colega ao meu lado, pois eu não falava nos intervalos comerciais. Eu estava gelado. Achei que não poderia inflingir aquela minha tristeza à mais ninguém e mandei avisar ao José Inácio Werneck que eu aceitava a oferta que ele tinha me feito para ir ao ar sózinho com o boxe. Mas não foi fácil para mim.

Em 1996 eu morrí. Eu tinha tido um dia de folga e passei umas 11 horas no computador (ainda brinquedo novo) e de repente dei por mim no chão com a cadeira na cabeça. Havia desmaiado. Levei um susto, achei que tinha ficado tempo demais na internet. Feito uma criança que faz uma “arte”, desliguei o computador, tomei um chuveiro e fui para a cama. No dia seguinte acordei cedo e tonto. Liguei para o Tim, um colega americano, e pedí pra ele me levar ao hospital pois não me sentia seguro para dirigir.

Cheguei no hospital, e tentando ser discreto eu disse sorríndo que estava lá porque havia desmaiado na véspera e estava meio tonto. Imediatamente começaram à agir. Comecei à sacar que poderia ser algo mais complicado do que horas demais no computador. Quando estava deitado, com a enfermeira tirando sangue e eu falando... de repente apagou tudo. Eu estava em algum lugar dentro de mim mas não sabia aonde. Parecia que havia tomado uma anestesia geral.

Quando voltei à mim estava rodeado por médicos e enfermeiras e eu só disse: “I lost my train of thought... (perdí o fio do meu pensamento)”. O cardiologista disse que é claro que eu perdí porque tive uma parada cardíaca de 5 segundos. “Você morreu e voltou”, ele disse. Ele disse que eu teria que ser internado. Eu disse que negativo. Era 4 de junho e eu iria narrar o Jogo 1 entre o Colorado Avalanche e o Florida Panthers nas finais da Copa Stanley. O médico, Dr. John Frazier, me deu um esporro dizendo que em 97 teria uma outra Stanley Cup, mas se eu não ficasse no hospital não teria um “eu” para narrar. E ligou para a ESPN avisando.

Eu achei tudo muito chato, pois já estava me sentindo perfeitamente normal. Enquanto isto eles já estavam falando em cirurgia no dia seguinte para colocar um marca-passo. No dia seguinte eu disse que não ia botar marca-passo nenhum porque no meu “hard-drive” ninguém mexe. O médico me perguntou se eu queria uma segunda opinião. Então eu pedí para ele ligar para a minha ex-mulher que estava na época morando em Miami para pegar o telefone de um ex-colega de turma dela no Brasil. Cláudia era estudante de medicina quando casamos, e o melhor aluno da turma dela era o Sérgio Kaiser. Eu sabia que fosse qual fosse a especialidade dele, ele seria dos melhores da profissão.

Para a minha sorte, o Dr. Sérgio Kaiser tornou-se um grande cardiologista. Meu médico ligou para ele e conversaram. O Sérgio perguntou se tinham feito um certo teste comigo. Não tinham. Me mandaram de ambulância para um hospital ainda melhor equipado em Hartford. Depois do teste viu-se que não precisava de marca-passo nenhum. Eu nascí com a minha válvula tricuspíde apenas bicuspide. E apesar de ser cuspíde de Gemeos e Cancer isto não quebrava o galho. Mas enfim, com o atenolol nosso de cada dia isto tornou-se um problema sem problemas, lol.

Nisto o Colorado Avalanche já havia vencido o Florida Panthers nos dois primeiros jogos (3-1, 8-1) e eu seco pra voltar para a cabine. Tive alta e no sábado já estava no ar (o Ivan Zimmermann narrou, só me deixaram comentar pra eu não me emocionar muito) e o Avs venceu de novo por 3-2. Como é uma série de melhor de 7, mais uma vitória e bastaria. Na segunda, 10 de junho, o ex-Quebec Nordiques teria a chance de vencer a sua primeira Stanley e eu já estava inteirão e narrando e vibrando com cada dos 7 power-plays da partida com os jogadores “kikados e banidos para o banco de castigo”, com as “defesas beleeeeeeezas” de John Vanbiesbrouck e de Patrick Roy, “o rei dos goleiros”, e só faltava gritar um gol.

Com mais de 5 horas de duração, o jogo foi a terceira mais longa partida da história da Stanley, e só se resolveu na 3ª prorrogação com um gooooool de Uwe Krupp para o Avalanche. 6 dias depois dos meus 5 segundos de morte. No dia seguinte a primeira preocupação do Werneck foi ligar para a ESPN para saber se eu ainda estava vivo após a maratona no ar. Acho que tem galera amarradona na NHL no Brasil que tem este jogo gravado. E depois, como bem disse o Dr. Frazier, eu tive mais Copas Stanleys para narrar nos anos seguintes. E tenho o gostinho de ser (ao menos até hoje) o único narrador à narrar as vitórias finais da Copa Stanley para o Brasil. E pontualmente.

BREVE: A verdadeira história do jogo de NFL que o Marco Alfaro fez sózinho porque eu atolei na neve.

9 comments:

Ricardo said...

Poxa, cada dia mais me surpreendo com todas as tuas historia Redzonico Guru, grande abraço

Graffo said...

Cara
mto bom mesmo esse post seu
vc eh mesmo um guerreiro
Mto legal

Pedro said...

Ah eu morri muito mais cedo que você hahaha antes de nascer! Na verdade não morri, mas não era pra ter nascido.

Minha mãe teve uma complicação, a pressão subiu horrores na hora do parto e ela entrou em coma, a ponto do médico chegar para minha vó e duas das minhas tias-avós e perguntar "quem você preferem que sobrevivam, a mãe ou o filho?". Eu tava falando isso com um primo de segundo grau meu, que apesar de primo tem quase a idade da minha mãe, e ele contou que o responsável por achar o doador de sangue para nós dois(eu e minha mãe) foi ele. Nós dois, ambos O-, dificultamos o processo para achar um doador, e ele conseguiu 2 vizinhos dele.

O primeiro chegou e o médico fez as perguntas de costume:
Médico-O senhor está em jejum?
Ele-To sim dotô
Médico-Consumiu alguma bebida alcóolica?
(silêncio)
Meu Primo - Você não bebeu, né!?
Ele - Ah eu tava nervoso pra vir pra cá e resolvi tomar umzinho pra acalma...

O segundo chegou, era um negão tipo 2mx2m, ai foram furar o dedo dele pra ver se tinha diabetes ou algo do tipo...
-Meu dedo você não vai furar não!
-Mas tem que furar
-Óh, do meu braço você pode tirar quantos litros de sangue você quiser, mas o meu dedo ninguém fura

No final tiveram que tirar o sangue da bolsa de sangue dele. Deve ser por isso que sobrevivemos, sangue de calibre haha


Pedro O. Obliziner

Pedro said...

Falei tanto que esqueci de comentar umas outras coisinhas. Curioso, eu também ganhei a pontualidade dos meus avós, no caso, minha vó nem pontual é... é exagerada mesmo. Se ela tem um ônibus para pegar ela chega 1 hora antes, só pro caso de algo acontecer haha

Mas eu costumo chegar nos lugaresm ou 5 min antes(para locais tipo médico, dentista), ou exatamente na hora(para pontos de encontro, tipo shopping, etc) ou hoje em dia tem uma mania horrível que chegar atraso em festa é até educado né, então eu acabo tendo que seguir também.

-E que bom que você voltou dos seus 5 segundos né? Capaz de eu nemt er conhecido futebol americano como conheço, e não ter um grande amigo como tenho.

-Quando minha mãe entrou em coma ela não sentiu absolutamente nada, ela sempre diz que esse povo que vai na tv falando que viu uma luz é mentiroso.

-Tou muito ansioso pra saber essa história da neve

-E é ótimo ter amigos médicos né? Pena que nenhum dos meus vai ser, só vou ter um engenheiro, dois diplomatas, um tecnico em computação com enfase em adm de negócios e um publicitário... nada muuuito util hahaha

Abração Dreco

Rafael said...

olá André, sou um grande fã de esportes americanos, e vc tem lá uns 90% de culpa nisso

esse post me deu saudades da epoca em que a ESPN transmitia a NHL, bem que vc podia voltar e trabalhar na ESPN Brasil, quem sabe com alguem que entenda do assunto eles não voltariam a transmitir.....

LucasArts said...

adorei esse post, um dos melhores seus... divertido e emocionante :)

eu já conhecia essa, mas teve um gostinho especial lê-la!

mal posso esperar a próxima, que eu conheço de perto e sei que vou rir... heheheheheeheh ;)

Jayson Braga said...

André, você lembra muito seu avô!!!! Ja disseram isso a ti? Depois você me responde! Abs!

Anonymous said...

"big boss" says Hi from Hong Kong.. :-)

Lucas Silva said...

Adler, forum Center Ice, de hóquei no gelo:

http://forumcenterice.forumeiros.com/index.htm