Monday, March 26, 2007

É isso aí, bicho! (ou “Eu gosto muito de montar elefantes na Tailândia”)

Mas não precisa ser elefante e nem bicho grande pra eu gostar. Dos santos, a história de São Francisco de Assis sempre foi a que mais me fascinou. E não tem como eu não pensar em todos os bichos que estão morrendo não só com o maltrato humano infligido ao ecosistema do planeta, mas também os bichos que morrem diáriamente nas guerras e tiroteios que afligem os nossos tempos.

Fiz boas amizades pela vida com Beethoven, Indy, Diesel, Jupiter, Pici, Ruby, Urso, Jubilee... e tantos bichos de amigos que ficaram meus amigos!

Eu sempre gostei de bichos. A maior diferença é que quando menino eu morava em apartamento e só podia ter cachorro de pelúcia. Mas tive gatos. Muitos. O primeiro que me lembro chamava-se “Bolinha” (e não era oval). O mais duradouro na infância foi o “Chaninho”. A gente morava num apartamento térreo na Rua Santa Clara, em Copacabana, e o Chaninho pulava muro e saía às vezes para procriar e fazer amigos. As vezes trazia algum amigo ou amiga para casa para desespero do meu pai que não gostava de gatos. Quando a procriação acontecia lá em casa ele não demorava muito para mandar um de seus funcionários reduzir a população felina do lar.

Mas não eram só gatos. Uma vez eu comprei um pintinho na feira e o pintinho era tão esperto que respondia ao assobio de uma certa música que era como um “sinal” da nossa família. Bastava assobiar e ele vinha correndo do quintal. E subia na cama e se aninhava como se fosse um gato, ou um cachorro de pelúcia. Se não me engano o nome dele era “Ximbica” em homenagem à um personagem de rádio da época. Um dia, ele já era um franguinho respeitável, um rato o assassinou no quintal. Acho que nesta época não tinhamos gatos em casa.

Depois teve a fase dos passarinhos. Tínhamos dois periquitos, um verde e um azul. O verde era do Thomas, meu irmão mais velho (acho que Jorge, o mais novo não tinha ainda nascido ou era neném de colo), e o azul era meu. Ambos dividiam a gaiola em paz maior do que meu irmão e eu dividíamos o nosso quarto. Os periquitos eram o nosso pomo da concórdia.

Mas isto não bastou, e arrumamos outra gaiola maior que povoamos com uma revoada variada que apavoraria o próprio Alfred Hitchcoock, que talvez nem tivesse filmado o seu famoso thriller “Os Pássaros”. Aquário também rolou, mas nunca demos muita sorte com peixes. Talvez porque eu tenha nascído no dia da troca de Gemeos para Cancer, talvez porque eu não coma peixes. Prefiro-os como companheiros de natação.

Só não conseguí fazer amizade foi com um papagaio que comprei, quando já moravamos num apartamento grande e comprido na Rua Tonelero, entre Siqueira Campos e Figueiredo de Magalhães. Eu já tinha o meu próprio quarto sózinho e resolví dividir com a figura. Mas o diabo do papagaio era traiçoeiro. Ele mordia. Era até engraçado vê-lo vindo pelo corredor comprido até a sala de jantar, mas ele mordia. Acabou sendo doaodo para uma funcionária da confeitaria dos meus pais. Como ela não pediu demissão e não foi trabalhar ferida, eu acho que ela e o papagaio se deram bem.Vai ver o louro preferia ser de uma mulher. Afinal, ambos falam mais.

Eu fiquei muitos anos sem animal de estimação, mas sempre fui amigo dos bichos dos amigos. E dos estranhos também. E nunca tive medo. Nem quando peguei um filhote de leão no colo num festival internacional de circo que rolou no Maracanãzinho. Uma vantagem eu sempre notei que bichos tem sobre humanos. Eles não mentem.

Já casado, morando no Leblon, (talvez até já descasado, nem lembro), eu comprei um canário cor de cenoura. O nome dele era meigo: “Pim-pim”. Era uma boa companhia e comia mais cenouras que o Pernalonga. Um dia voltei do trabalho e a gaiola estava aberta. E o canário não estava mais lá. Acho que chorei um pouco.

Quando cheguei em Nova York, aluguei um quarto na casa de dois caras que pouco lá paravam de dia. Mas tinham um cachorro: “Montgomery Clift”. Monty foi o meu primeiro amigo nos Estados Unidos. Levava ele pra passear no Riverside Park, e foi muito graças à ele que comecei à me sentir em casa por lá. Os caras já estavam até com ciúmes. Eu não tenho ciúmes dos meus bichos. Eles ficam amigos de todo mundo e eu gosto de ver isto como um “pai” orgulhoso.

Em 1985, eu morava já em Greenwich Village, e tinha uma loja de presentes que era de uma dominicana italianizada por anos vividos na Itália (só em Nova York a gente encontra gente assim) que vendia lindas peças de artezanato brasileiro po preços razoáveis. Era um lugar que eu ia muito quando tinha que comprar presentes, e também pra bater papo pois a dona era boa de papo. Ele tinha uma gata siamesa na loja que eu sempre acariciava. Um dia fui lá e a gata não estava na área. Perguntei pela bichana e a dona me levou para o fundo da loja onde a siamesa amamentava uma ninhada de seis. Ela me ofereceu um. Eram 4 com aquele pelo e cor de siamês mesmo e dois rajados. Na hora que eu estava olhando, um dos rajados fez um estertor e eu entrei numa que ele sorriu para mim. Eu disse: “I want that one!”. Mas aquele bichinho já estava prometido. Eu fiquei bolado.

Por sorte, estava pra se realizar a anual festa brasileira da rua 46, e uma amiga tinha uma barraca lá. Coloquei as duas em contato, e acabei ganhando o gatinho que eu queria. Deixei passar as 8 semanas de amamentação, comprei comida, caixa de areia, brinquedos e finalmente a dominicaitaliana chegou trazendo o felino numa bolsa. Ficamos enfim sós. Depois de muitas décadas finalmente eu tinha um gatinho. Botei o nome muito óbvio de “Garfield”.

E chamava pelo nome ou simplesmente de “tsitsa” (que é gatinho em húngaro e escrito “cica” mas eu não pensava como a marca indica). Uma noite eu cheguei do trabalho e o bichinho passeou no sofá acima do meu ombro. Foi quando notei, surpreso, quase estarrecido... que não era um gato, mas uma gata! E eu disse: “Garfield.. you are a girl”. E ela me olhou com uma cara de “of-course-I-am”. Não ia chamá-la de “Garfielda” porque seria sacanagem, e escolhí uma grafia fonética americana com jeito interplanetário: Tzee-Tzah!

Tzee-Tzah ficou famosa entre os famosos e os não famosos que me visitaram nos Estados Unidos. Era linda, dengosa, reservada, engraçada. Sempre que viajei alguém se “mudou” para o meu apê pra cuidar dela. A mudança do estúdiozinho da Rua 8 parao estúdio maiorzinho da Rua 25 tirou a panorâmica que ela tinha da janela, mas deu novos espaços para a gata. E quando nos mudamos para Connecticut ela veio nervosa mas se adaptou logo.



Faltando uma semana para o meu aniversário em 1999 eu resolví me dar um som novo de presente. Fui no shopping. No shopping tinha uma loja de animais que eu sempre espiava quando ia lá. Desta vez tinha um husky castanho de olhos azuis que olhou pra mim com uma cara de “aí que tédio, mais um que só olha”. Ele parecia um morcêgo porque ele tinha 3 meses mas as orelhas já eram longas como se adulto fosse. Eu pedi pra tirar ele da gaiola. Bastaram alguns minutos e resolví que ia ficar com meu som velho e comprar o husky. Era época de Copa Stanley. Primeiro pensei em chamá-lo Stanley. Mas logo resolví homenagear o melhor jogador de hóquei de todos os tempos e q eu nome melhor para o meu husky do que... Gretzky!?

Coloquei ele na jaulinha nova q tive que comprar até ele ser treinado na parte de baixo da casa, onde era meu escritório e sala de tv. Estava no computador quando a Tzee-Tzah desceu toda sestrosta e deu de cara com a figura. Ela olhou pra mim, me xingou de babaca em idioma felino, e voltou lá pra cima. Com o tempo eles acharam a coexistência pacífica. Se o Gretzky chegasse muito perto ela fazia uma cara de onça pra ele e ele mudava de idéia. E afinal, só ela que podia dormir na minha cama.

Um dia ela perdeu o movimento numa pata. Estava chegando o fim do seu ciclo. Levei no veterinário, era cancer. Voltei arrasado. Tentaria um outro veterinário no dia seguinte. Nesta noite, que seria a última da Tzee-Tzah, o Gretzky subiu na cama e começou a lambê-la. Ela deixou. Do jeito deles eles também se amavam.


Depois ele passou a dormir na cama. Gretzky adorava pessoas e cachorros. Era amigo dos cachorros da vizinhança. Era amigo dos meus amigos. Era amigo dos churrascos que o Markito fazia. Gostava de ouvir o Reginaldo Faria tocar violão nas suas visitas à Bristol.

Em 21 de março de 2005 ele fugiu, atraído pelo cheiro de uma cadela. Foi atropelado e morreu à caminho do hospital. Nem preciso dizer o que sentí. Mas no dia 25 eu coloquei este post no meu fotolog:

“Não existem substituições. Gretzky, primeiro cachorro da minha vida, vai sempre ser guardado no meu coração, como a minha gatinha Tzee-Tzah. Depois de 20 anos tendo bicho, passei 3 dias de grande vazio e sofrimento. Esticar a dor é uma auto-punição quase sempre desnecessária.

Hoje foi dia de folga. Conselhos de família e amigos me fizeram entrar no meu carro e ir para uma cidade próxima onde fica a sede da "Humane Society", uma organização sem fins lucrativos que busca achar lares para animais que não os tem. Estava ainda (pelo menos pensava) hesitando em adotar um outro animal, mas me deixei seguir os sentimentos.


Poderia ter voltado pra casa com uns 4 cachorros e 3 gatos (já que não haviam elefantes para adoção). Mas voltei com um, que com olhos cor de mel, açucarou meu coração. Um bulldog misto com labrador. Ele é dourado :)

Amigos, deixem-me apresentar Joe Montana (era "Harley"). JOE para os que serão íntimos.

Ele está feliz na casa e a casa esta de novo com cara de lar. Ele é também uma homenagem ao Gretzky.”


Pois Joe está comigo há dois anos. É amigo dos meus amigos que o conhecem. Gosta de gente e de cachorros. Nascido na Carolina do Norte, veio parar na Hungria. Entende inglês, português e húngaro. Está feliz. Fez amizade com Bucsi, o cachorro dos vizinhos e ambos passam horas brincando ou morgando. Aqui e lá. E é meu melhor amigo.

E os bichos não mentem.



DENUNCIE SEMPRE QUALQUER CRUELDADE COM ANIMAIS ÀS AUTORIDADES COMPETENTES.

15 comments:

Jayson Braga said...

Sinceramente fiquei emocionado ao ler esse texto. Até porque me coloquei em seu lugar... Também penso na perda do meu "Guga", mesmo sabendo que ainda esta vivo e sendo extremamente bem cuidado pelos meus pais. Sinto falta dele após me casar, como se fosse uma verdadeira pessoa.

Texto emocionante Amigo!

Abs

Milo said...

é contagiante teu carinho pelos animais, e essa recapitulação toda, nossa, realmente difícil sair do óbvio e não dizer "emocionante". Não apenas comove, mas, move, nos faz pensar e agir.

ah
dá uma espiadinha, a última linha do meu post no blog diz: Uma carinhosa homenagem para André José Adler

Milo said...

consegui dar uma fuga aqui pra atualizar o meu blog lá, dá uma olhadinha, suspeito que vais gostar andré!

abração!
a estória chama Maltaria

Lucas Sigaud, o dono do Indy said...

Só hoje li esse post.

Lindo. Mesmo.

Chorei em pontos.
Me orgulho de ter conhecido a Tzee-Tzah (e dela ter simpatizado comigo).
Lamento sempre não ter conhecido o Gretzky.
Prometo conhecer o Joe. :)

(keep 'em comin')

Pedro Obliziner said...

Sabe eu também tenho uma relação muito intensa com os animais, acho que é coisa que está no sangue, aliás só de ler isso provavelmente meu avô já te consideraria da família.

Quando eu era pequeno costumava ser bem radical, não deixava ninguém matar nem ao menos uma formiga no colégio, e isso gerava comentários de que eu era estranho haha também fazia altos discursos do tipo "ela não está te incomodando, por que vai incomodá-la?".

Por passar todas minhas férias no sítio(que na infância eram 5 meses, quase metade de um ano) eu era muito ligado a natureza mesmo e desde sempre tive bichinhos, que não eram realmente meus, mas vez ou outra eu visitava. O primeiro animal que eu tive mesmo foi um cão preto chamado Bob, mas o Bob se mudou pro meu sitio e como um garoto urbano que não entende nada de mato resolveu lamber o leite gotejante da teta de uma vaca. Infelizmente pra ele aquela era a vaca mais brava do meu avô e ele morreu. Mais tarde eu também comprei um pintinho! E como ele durou, mas eu não consigo lembrar o nome dele...

Mas uma noite a um tempo atrás parei para pensar sobre todos esses bichos (e realmente acho que gosto mais de bicho do que de bicho gente porque eles sempre são leais... menos os cavalos, por isso não monto cavalos) e comecei a chorar e chorei a noite toda, chorei até pelas vacas,g alinhas, peixes, passarinhos(nossa eu tive um monte, já já eu conto), cachorros.

Acho que o único lado ruim de ter um animal junto a ti é que geralmente eles se vão antes de você...

Pedro,
que no momento está com planos para ficar cego, pois só assim sua mãe vai lhe dar um pastor alemão

PS: Quanto aos passarinhos, eu tinha uns de uma raça chamada Chupim que minha vó criava desde pequeno, então eles não fugiam, andavam com a gente no ombro pela rua e eram tão inteligentes, e acho que a maioria das pessoas acha que pássaros são burros.

PPS: Minha mãe também teve um papagaio que adorava ela, mas xingava minha avó de velha e bicava o meu tio hahaha

PPPS(isso existe?): Eu quase sempre acabo escrevendo mais nos comentários que você no texto hahaha

Pedro Obliziner said...

Af e sempre sobra um monte de coisa que eu não falo... Quanto o Gretzky, foi uma pena não ter conhecido pessoalmente, assim como o Lucas disse, mas meu amigo virtual ele era! =)

E prometo conhecer o Joe também

Simplesmente Dé said...

Adler, encontrei seu blog. E junto com ele seu amor por animais. Só sabia do Joe por causa do seu fotolog...

Estou com um blog sobre Futebol Americano Feminino e uma visão feminina do esporte, posso te adicionar lá?

bjos
Denise

André said...

Adler, amigo dos Animais....
vc é emais mesmo, paarbéns pela matéria...isso mostra o qnto vc é humano....abs meu amigo!!!
André Rozendo

Cr0n said...

Poxa to ghostando muito...
...mas bem que poderia ser mais rapido :P
quero mais!!!!

Daniel Reche said...

Oi André!

Aqui quem fala é o Daniel, seu amigo de orkut e fã.

Eu criei um blog pra ajudar a divulgação do Futebol Americano, "O Quarterback".

Gostaria muito que você conhecesse, e se possível, eu linkar suas histórias do Futebol Americano para os novos fãs da NFL conhecerem. No futuro também gostaria de mandar umas perguntas para postar uma entrevista com você.

Um abraço, e espero logo vê-lo novamente com a NFL aqiu no país.

Daniel Reche

Daniel Reche said...

O link:

www.oQuarterback.s9k.net

Capoeira said...

Que post sensacional Andre, sempre gostei muito de gatos, tive 3. Todas sensacionais.
Fique emocionado pacas com o texto.

Meus parabéns :)

Marcio Oliveira said...

Opa, tudo bom Adler? Obrigado pelas palavras de apoio! Eu estou voltando lá pro blog. Devagarinho, mas vamos que vamos!!!

Abraços,

Sol said...

Eu tive uma cadela parecida com o Pointer da tua foto, chamada Babuska.
Deu uma saudade...
Legal o seu Blog!
Abracos,
Marcy Vasvary

Eduardo Costa said...

E os bichos não mentem.

Neles podemos confiar.

Abração mestre Adler.