Tuesday, March 9, 2010

A Aquarela do Erasmo Carlos


Terminei de ler o livro do Erasmo Carlos “Minha Fama de Mau” com o qual me diverti muito. Li ele quase todo no avião indo para Foz do Iguaçu e voltando, faltou um pedaço que lí em casa. O livro é leve como uma aquarela.

Ele fala de muita gente com quem conviví e me trouxe boas lembranças. Inclusive das filmagens de “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” do Roberto Farias, no qual fui 3º assistente de direção, ou sejá pele, ou seja como nos créditos: “contra regra”. Isto porque carregava pra cima e pra baixo a maldita estatueta reproduzindo a Pedra da Gávea, que era importante na trama do filme.

Tenho várias lembranças das filmagens, como o RC sempre mandando o seu secretário comprar coisas legais para a equipe, sempre chocolate para mim, e muitas piadas.... e ele praticando inglês comigo.

Uma das lembranças foi quando a gente tava enfurnado nas Grutas de Maquiné em Minas Gerais. Teve um dia que filmamos 24 hs seguidas para acabar. Eu ia lá fora buscar o pessoal para filmar. O Professor Nakatani, que era um professor genial de aikido e fazia o genio que acabava morto pelo José Lewgoy q era (grandes novidades!) o vilão, estava lá fora jogando cartas com os outros japoneses que eram os asseclas do Lewgoy no filme. Aparecer num filme com Roberto Carlos era tudo que muitos sonhariam. Fui buscar o mestre:

“Vamos lá, professor. Vamos rodar uma cena!”

Ele, com todo o sotaque da terra do sol nascente: “É cena de morte?”

Eu, sorrindo: “Ainda não, é um diálogo com o Lewgoy”.

E ele, meio decepcionado: “Quero morrer logo. Quero voltar pra Rio!”

Outra lembrança, e esta sim bem absurda. Eu estava fazendo claquete, e a cena era gravada com som direto como guia. Era um close da Wanderléa. Eu tinha que segurar a claquete aberta, dizer o numero da sequencia e da cena, bater a claquete e tirar pelo lado. Lembro que era uma posição ultra sem jeito pra esta pequena função. Fiz a primeira claquete e o diretor Roberto Farias me disse que tirei rápido demais. Repetí, e ainda não saiu como ele queria. Na terceira tentativa eu já estava tão nervoso que disse o número da cena e batí a claquete mas ela não fez som... o nariz da Wanderléa ficou preso na claquete. Pelo menos foi uma gargalhada geral. E a Ternurinha não teve o seu nasal machucado com necessidades de Pitangui!

Mas a história que o livro do Erasmo me lembrou é uma que óbviamente não está no livro dele. Naquela época a gente tinha uma turminha muito querida (nos encontramos menos hoje mas nos gostamos igual) que se reunia na casa do Paulinho Mendonça e sua então esposa Maria Alice Langoni. Paulinho através dos anos penetrou mais e mais no cinema brasileiro e hoje ‘é o Diretor Geral do Canal Brasil. Reginaldo Faria, sua então esposa Kátia, Claudio Tovar, Regina, Berilo Faccio (na época assistente do Roberto Farias) e mais outros queridos nos juntávamos e conversávamos e criávamos filmes, peças, músicas.

Mas quando a gente saía e dava de cara com coisas que achávamos caretas, cafonas, quadradas, coisas que faziam parte do kitsch nacional, cantarolávamos “Aquarela do Brasil” como um código da observação. Muitas das nossas brincadeiras foram parar em filmes do Reginaldo, ou nos roteiros que eu escrevia.

Numa filmagem do “Diamante” eu estava no barco com o Erasmo, indo filmar numa ilha. Nesta época o Tremendão já diversificava seu repertório buscando coisas outras que “jovem guarda”. Pois eu passei a viagem inteira convencendo o Erasmo que seria sensacional ele gravar a obra prima de Ary Barroso “Aquarela do Brasil”.

Quando a noite chegou, e eu fui pra casa de Paulinho e Maria Alice e contei que o Erasmo ia gravar a Aquarela, foi um festival de gargalhadas mesmo que ainda um tanto incrédulas. Ele gravou. Foi um grande sucesso e o Erasmo nunca soube que por trás da minha sugestão estava mais uma brincadeira com a nossa turminha.

Depois do filme, só reencontrei o Erasmo nos anos 80 em Nova York, numa noite que Billy Blanco Jr, tocava no City Lights, em Greenwich Village. Ambos tínhamos mais cabelos que não eram ainda brancos. Batemos papos gostosos e nos despedimos com um abraço com o afeto que mantenho no peito até hoje pelo Tremendão.

2 comments:

Buda Petermann said...

O tremendão é um de meus idolos...
O Rei é o Rei, ele é fera e tirando as musicas que ele fez pras gordinhas e mulheres de óculos e aquela baboseira toda... ele é o Rei e vai ser sempre fódão!
A ternurinha me tira o fôlego até hoje,

Agora ter um amigo que conviveu com essas feras, não me esquecendo todo esse pessoal do cinema, monstros sagrados da nossa cultura,
é eu tenho muito orgulho de ser teu amigo mesmo.

Mas tem algo que não posso deixar de falar, o Erasmo com esse visual dele aí... cara, ele praticamente inventou o figurino do CROCODILO DUNDEE!

La na década de 80 o Mike Dundee partiu da Australia pra NY e usando as roupas do Erasmo ganhou o mundo!

abraço Xará, e obrigado pela dica de leitura. :)

Anonymous said...

André, querido André...
Boas tuas memórias - City Lights com o Tremendão lá - cantei "Gatinha Manhosa" pra Narinha e o Erasmo ficou emocionado. Ele é muito querido mesmo! Thanks for the Memories...
Beijo,
B.