"Não sei o que esperava encontrar de cara na Hungria, mas encontrei alguma coisa que me trouxe lembranças estranhamente familiares e absurdas. A burocracia do capricho. Cheguei com 3 malas, fora a mala de mão e meu cachorro Joe Montana. Embora sem intenções de vender, trouxe um laptop da hora, uma impressora de menos de 2kgs, e guarnições de computador que dariam água na boca de qualquer fominha de internet , e cabos e conexões que dariam pra fazer o desfile da Escola de Samba Unidos da Moamba.
Já vinha me preparando para esta mudança há um mês e a primeira coisa foi providenciar a documentação canina. Depois de gastar uma nota no veterinário habitual e vacinar o bicho contra tudo menos gripe aviária, tive que levar o Joe num outro veterinário com certificação federal no Estado de Connecticut. Resumindo, outra vacina anti-rábica em cima da que ele já havia tomado. Eu que precisava de uma vacina porque a minha raiva não foi pouca. Mas enfim, uma das exigência era injetar um microship de identificação no bicho.
Me passou um pensamento (que rezo para não ser uma premonição) apavorante. E se um dia as pessoas forem injetadas com um microship. Fim de passaportes ou qualquer outra identidade. Você passa a ser escaneado toda vez que faz qualquer operação, desde abrir portas até acessar contas bancárias. E claro, todas as ruas e todos os lugares teriam cameras com possibilidade de escanear as pessoas. Um “Big Brother” levado às ultimas consequências.
Mas enfim, toda a documentação e tecnologia foi absolutamente inútil. Fui certamente um dos últimos passageiros à passar pela alfandêga e imaginei que desta vez teria que passar pela área vermelha para escanearem o Joe.

Que nada! Tinha apenas um funcionário na área vermelha, e olhou pra mim com uma mistura de displicência e mau humor por eu ter interrompido a sua leitura de jornal e ele me mandou passar pela área verde direto. Todo o meu trabalho e dinheiro investido e não só não escanearam o bicho como sequer olharam pra ele. Eu podia estar contrabandeando o próprio Drácula naquele canil à caminho da sua batcaverna na Transilvânia. Nem notariam se eu tivesse talvez aquela duas marcas de dentes, discretamente disfarçadas pelo meu cavanhaque.
Tava tudo muito bom, tava tudo muito bem. Meu amigo Péter Szigeti (pronuncia “Pêtér”) tinha providenciado de um tudo para mim. Foi um processo de mais de dois meses. Contatos diários de primeiro grau no MSN. Arquivos pra lá e pra cá. Casa escolhida e alugada, geladeira, máquina de lavar roupa, ar condicionado comprados. Despachei com antecedência trinta e seis caixas empacotadas trazendo desde os meus cds e quadros, até meus pratos e talheres, roupas e toalhas, fotos e mais fotos, credencias de eventos, e até uma caixa de Maizena comprada às pressas na seção de artigos brasileiros de um dos supermercados da aprazível cidade de Bristol onde viví 12 dos meus últimos 27 anos nos Estados Unidos. Mas enfim, tudo nos trinques e correto.
Quase enlouquecí porque o depachante de alfândega disse que as autoridades húngaras queriam prova fornecida pelo governo americano de que vivi os últimos 12 meses na terra lamentávelmente governada pelo George Dablíu. Isto não existe. Achei que se satisfariam com o documento de comprovação de imposto de renda do ano passado emitido pela Disney. Como o Tio Patinhas resolveu economizar e deu um “bye bye pessoal” nos brasileiros que trabalhavam na ESPN em dezembro, e como eu e meu parceiro Marco Alfaro tivemos uma esticadinha de contrato até fevereiro cheguei até a pensar em mandar uma cópia do video do Super Bowl XL. E esticar de fevereiro até minha chegada na Hungria com a documentação do seguro-desemprêgo caridosa e oficialmente oferecido pelo Estado de Connecticut.
Mas não. Agora queriam um documento do consulado da Hungria em Nova York. Liguei para o consulado e fui informado de que eles havia “descontinuado” um formulário que existia para isto. Agora, já aqui e sem a opção de fugir para uma boa praia brasileira e complementar a menos que satisfatória pensão e aposentadoria gritando uns “e é tooooooooooooouchdooown!” e cobrando o mate gelado nosso de cada dia, vou ter que ir na Embaixada Americana fazer uma declaração que será meramente carimbada ao custo de 30 dólares.
Será que vai bastar para os caprichos burocráticos magiares? Por menos perda de saco que isto o Zidane perdeu a cabeça na Alemanha. Ah, se fosse apenas um cartão vermelho!"